Costumava admirar-te. Olhar para ti horas a fim, até tu te aperceberes e me perguntares porque é que eu estava a olhar assim para ti. Acordavas-me. Na realidade, nunca olhei para ti, nem sei ao certo a cor dos teus olhos. Olhava através de ti, para tudo o que tinhas aí dentro, para a pessoa que tu me desde. Costumava admirar esse teu cuidado. Essa tua transcendência cuidadosa. Essa tua preocupação. Nunca me pareceste igual aos outros, poucas foram as pessoas com as quais me senti segura.
Um dia levei um estalo teu, sem sequer me teres tocado. Acordaste-me como se tivesse levado com um copo de água gelada na cara.
Olhei para ti e já não eras o mesmo. Não passavas de um atrasado emocional, que não teve coragem de pisar a linha por mim. Que não se manteve fiel á realidade que me tinha mostrado. Tinhas medo, toda a gente tem, era estúpido da minha parte se te julgasse por isso. És limitado, não és capaz de te transcender. Ou se calhar até és, mas por mim não foste. E não há nada pior no mundo, do que nos sentirmos pequenos. Não mereci o teu esforço, e sou melhor que tu.

(pic by: deviantArt.)
« Podia colar-se aquilo que estava partido, mas se tivéssemos sido nós a fazê-lo, saberíamos sempre no nosso coração onde estavam as linhas da fractura. »
