" - Senta-te aqui, e pára de chorar.
- Não consigo.
- Consegues sim. Queres leite com chocolate? "

Começaram sempre assim, as nossas grandes conversas... Muito descaradas, sempre a atirares-me á cara o quão banal o meu choro era. Para mim, uma boneca partida ou um grito da minha mãe era o fim do mundo... Para ti, nada que um copo de leite com chocolate não curasse.
Ensinaste-me os nomes das flores todas do quintal. Fizeste-me queijos moles até eu os enjoar. Vestias-me de cor-de-rosa numa tentativa de me tornares numa criança feminina (coisa que não aconteceu). Levavas-me á missa, sabendo que eu tinha medo da 'senhora que está dentro da caixa de vidro'. Eu ia contigo ás procissões só mesmo porque achava piada ver tantas velas acesas. Ensinaste-me a cozer ponto e cruz e bem que tentaste pôr-me em frente á maquina de costura, mas fracassaste, eu tinha medo dela, continuo a ter. As tuas fatias de ovo foram as melhores que já comi até hoje.
Deste-me tudo o que sabias, tudo o que te haviam ensinado. Para ti, o mundo era bonito, apesar de todo o sofrimento que ele te causou. Foste consumida por uma doença que foi parar ao corpo errado, que acabou por matar grande parte de nós, também. O mundo está cheio de coisas erradas, de pessoas que morrem consumidas por aquilo que te matou também, há guerras em tudo quanto é sitio e pessoas más por aí á solta.. E tu, com a maior das serenidades, dizes-me:
" - O mundo é tão bonito. Não devias chorar."
« Morrer é a curva da estrada. » Fernando Pessoa